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quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Palavras dos pequeninos i


Ó C, aqui no gabinete é como se fosses minha mãe, não é?
V., 6 anos

sábado, 4 de outubro de 2008

Quando a casa de uma criança não é um lar...

Como sabem vejo muitos meninos. E de entre os meninos que vejo uma percentagem maior do que eu gostaria (e para mim 1% já é mau) é de crianças institucionalizadas, com passados pequenos mas arrepiantes, curtos mas de feridas tão profundas que nem um futuro enorme e melhor vai conseguir fechar. As feridas de dentro. As de fora curam-se. As de dentro não há como. Condicionam o presente, o futuro e como eles são e serão. Não gosto do inevitabilismo. Mas eu sei que é assim. Infelizmente na maior parte das vezes.
Em geral costumo falar com os pais dos meninos com quem estou.
Estes meninos em instituições têm árvore genealógica, mas não têm pais... ou vão tendo.
Isto tudo para chegar a uma coisa curiosa que sucedeu há uns dias. Vou estar como formadora a dar uma pós-graduação em psicologia forense. Esta semana fomos apresentar-nos (formandos e formadores). De entre os formandos, duas psicólogas que trabalham com o outro lado da moeda: com as mães que não podem ter consigo os filhos, por incapacidade afectiva, por doença mental grave, por comportamentos aditivos. Chocou-me uma colega dizer que as mães alcóolicas, por exemplo, a quem lhes é retirado os filhos, parecem não ter grande sofrimento associado. Não sei, talvez por ser naïf, por ser uma optimista e acreditar sempre, pensei sempre que de cada lado da barricada houvesse sofrimento que tivesse que ver com a separação. Quer dizer, sempre não, mas a maior parte das vezes. A sensibilidade de quem está do lado de lá é que isso ocorre como excepção e a regra é bem diferente...
Ontem estive a rever processos de meninos que vou acompanhar em grupo terapêutico durante os próximos meses. No grupo das meninas uma delas é institucionalizada. E eu rezei sinceramente para que no lado de lá dessa barricada, houvesse uma mãe triste, que sofre com a separação da filha, seja lá qual for a problemática que a levou a abandoná-la. E porque o fiz? Porque é melhor olhar para a menina em causa e saber que é amada, mesmo à distância e que no passado de alguma forma ela sentiu esse amor. Senão... é o vazio. Se a nossa mãe não nos ama, como é que alguma vez vamos ser capazes de ser amados por mais alguém? Em termos mentais isto faz toda a diferença...

Ring a Bell?

terça-feira, 15 de abril de 2008

"Estou tão assustado que vou fazer de urso mau"

Não me disse isto. Mas poderia ter dito. Não foi preciso. Demonstrou.
Hoje um menino de 10 anos quase que me agrediu, recusou-se a entrar no gabinete, disse à mãe que o empurrava para a consulta "tira as patas de cima de mim", recusou-se a manter contacto ocular comigo numa postura desafiante e opositiva.
Este menino sofre. Mais do que os meninos que choram quando sofrem. É um menino que sofre, que tem medo, que está zangado e que não sabe como fazer com isso tudo o que sente. Age mal.
Este menino é vítima de "bullying".
Este menino quando sorri é uma criança simpática.
Saiu da consulta depois de fazer-lhe o que me tinha proposto fazer-lhe em termos de avaliação psicológica.
Custou, mas não desinvesti.
Este menino precisa de colo. Muito. Mesmo quando nos agride é um pedido.
Não agrediu mais. Deu-me um beijo no final e disse: Gostei dos jogos que fizemos.


Ring a Bell?